Você se lembra, Salo?

Um conto de Ligia Nunes

Imagine um fundo preto—e então um corpo genérico e torcido em poses de modelo à sua frente.

“Adorei essa pose, Mônica.” Clique, clique, clique. “Vira um pouco pra direita. Abaixa o queixo.”

Bem vindo à minha vida.

As minhas caras caixas de som tocam uma música ambiente e brega enquanto um cheiro suave de produto de limpeza sobe do assoalho de madeira. Imagine luzes fortes e quentes (todas muito brancas) vindas do teto e de flashes dedicados. Isso, aqueles mini-holofotes com “guarda-chuvas” atrás. Do lado de fora, posso ouvir o caos da Avenida Ipiranga com a Rua Araújo e do lado de dentro, ouço risadas e comentários de pais e mães super-protetores.

“‘Cê tá linda, filhinha. Tenta levantar mais o queixo… isso, assim mesmo!”

Também aqui dentro, esses pais e mães super-protores querem fazer o meu trabalho por mim.

“Você não acha que a iluminação tá muito forte, Salo? Será que não consegue diminuir um pouco o nariz dela? Aumentar o busto?”

Mas eu sou um fotógrafo, não a porcaria de um cirurgião.

Eu suspiro, solto uma risada forçada. Digo qualquer coisa sobre mudar o ângulo, sobre as novas modelos ganhando espaço nas passarelas, sobre coisas que já nem tenho mais ideia do que sejam. E enquanto ouço os estalos da minha máquina fotográfica, um clique-clique-clique infinito, percebo que… que eu já não sei mais o que eu estou fazendo da minha vida.

Mais do que isso, sinto que há algo faltando dentro de mim.

Essa sensação só desaparece quando a mãe super-protetora para à minha frente e me entrega um envelope com o meu pagamento. Ela explica qualquer coisa sobre não confiar em bancos, diz que está feliz por eu ter decidido voltar a tirar fotos de “futuras top-models” e vai embora, puxando a filha num aperto maternal.

Deixo meu corpo cair no sofá. Eu não decidi voltar ao ramo. Eu não tive escolha.

Meus últimos clientes do dia já foram embora e meu apartamento é só meu outra vez. Divido o silêncio com os sons eternos do Edifício Copan e com sua atmosfera fria e distante. Eu me estico para o lado, apanho minha correspondência.

“Conta pra pagar, propaganda, conta, conta, propaganda, as contas do hospital…”

Essa é minha rotina diária. Eu vejo Mônicas e Eduardos e Rafaelx’s e tiro suas fotos, monto seus books, os encaminho para os nomes nos papéis amarrotados na minha escrivaninha. Contatos antigos, gente da faculdade, amigos do ramo que podem transformar rostos desconhecidos na próxima Giselle Bündchen—ou é assim que eu vendo meus serviços a eles. E eles acreditam (ou fingem que acreditam) enquanto eu os convenço (ou finjo que convenço) que eles têm chance no meio e que suas vidas podem mudar como mágica, do dia pra noite, sem esforço algum, só com um rostinho bonito.

O que, cá entre nós, é uma puta mentira. Nada vem sem esforço.

Acendo um cigarro e solto uma fumaça comprida e tóxica para o lado. Como tentar parar de fumar, nada é fácil, não é assim que as coisas acontecem nessa vida. E eu sou uma péssima pessoa por tentar convencê-los do contrário.

“Porque eu não virei dentista?” pergunto num murmúrio, jogando outra conta para o lado. Eu podia ter recomeçado, mudado tudo…

Dizem que passar por uma experiência de quase-morte te faz mudar de vida. Dizem que te faz entender a fragilidade do mundo, mas… bem, não foi isso que aconteceu comigo. Apesar dos anos que eu passei engessado e entubado numa cama de hospital, apesar dos flashes do acidente de carro, dos gritos, sons, do vidro quebrado e molhado de sangue, brilhando em flashes de vermelho (apesar disso tudo) continuo vivendo na mediocridade. Continuo me alimentando dos sonhos dos outros.

Continuo tendo contas pra pagar.

E se há algo de novo em mim, além dos pinos metálicos em toda a minha perna esquerda (e na dor que sinto em dias chuva) é o sonho estranho, os olhos castanhos diante dos meus, a voz suave que pergunta sempre, “Você se lembra, Salo?”

Mas depois de três anos em coma, eu não sei do que poderia me lembrar.

Jogo a conta de luz para o lado e então paro num envelope de papel pardo.

Desligo a TV, interrompendo o discurso de uma mulher em roupa social, e checo o nome no envelope:

“Salo Diniz,” leio baixinho. Salo, o apelido que virou nome artístico. “Abra sozinho.”

Não consigo segurar a porcaria de uma risadinha de deboche enquanto apago meu cigarro. O motivo: eu não me lembro de ter pego esse envelope junto com minhas outras cartas, hoje de manhã. O que significa que ela (ele?) entrou aqui, bem debaixo do meu nariz, e deixou essa porcaria entre as minhas cartas.

Minha admiradora secreta (ou admirador?) está ficando cada vez mais ousada. E, talvez, perigosa.

Respiro fundo. Abro o envelope. Dentro, vejo fotos embaçadas com um ou dois elementos em foco. Uma aliança, um terno com um cravo na lapela, um sapato de noiva, branco e rendado. E dessa vez, há uma outra foto também. Uma foto de vidro quebrado no asfalto.

Sinto meu estômago retorcer. Revirar. Meu coração aperta, minha garganta também. As imagens do acidente, os sons da sirene…

“Calma, calma, calma,” falo baixinho, quase como um mantra.

Se isso for uma brincadeira, é uma de muito mal gosto.

Me levanto e sigo até um mural de cortiça. Presas no mural, as outras fotos que recebi no último mês parecem montar a cena de um casamento. Não. De vários casamentos, alguns com flores brancas, outros com rosas, outros com estranhas flores azuis. Eu vejo doces finos, luzes delicadas, arranjos, cadeiras enfeitadas e vejo pessoas, um sem-número de rostos desconhecidos. As fotos são lindas—dessas que se espera ver em uma revista—mas eu não faço a mínima ideia de quem é essa gente.

Prendo as novas fotos no mural, me afasto um passo, solto um supiro comprido.

Fica na minha mão a foto do vidro quebrado. Fica no meu peito o desconforto e a angústia de não saber que merda tá acontecendo aqui.

Merda. Sinto os olhos e o estômago queimarem. Talvez eu deva chamar a polícia.

Meu celular toca num som estridente e alto que espalha um calafrio pelos meus braços, pelas minhas costas, pelo meu corpo inteiro. Corro para atendê-lo e encaro o nome desconhecido na tela. Sonho.

Eu não lembro de ter salvado esse número na porcaria do meu celular. Os calafrios se intensificam.

“Alô!” digo, o tom alto e rude. Do outro lado da linha, ouço uma respiração alta e silêncio, nada mais. “Alô?” eu tento outra vez. Nada. “Escuta aqui, seu bosta, eu vou chamar a polícia se ‘cê não parar com isso, entendeu?”

“Já faz um mês que você saiu do hospital,” diz a voz do outro lado. É uma voz feminina e baixa, delicada como papel, etérea como uma sombra. E bêbada, também. “Você prometeu que ia parar de fumar.”

“Quem é?” eu pergunto. “Como ‘cê sabe disso?”

“Seu sonho,” ela murmura em resposta. “É seu Sonho, Salo!”

Eu sinto ódio. Raiva, surpresa, impotência, tudo junto.

“Você é louca. Não me liga mais. Entendeu bem? E pára de me enviar essas merdas de fotos.” Minha voz aumenta, minha raiva também. “Se eu te pegar perto da minha casa, eu juro por Deus…!”

“Já faz um mês,” ela me interrompe. “Você não se lembra, Salo?”

Aquelas palavras injetam medo, denso e gelado em minhas veias. Eu desligo o celular e o lanço com força contra o sofá. Sinto meus lábios trêmulos, meu estômago gelado. Recuo um passo.

Você se lembra, Salo?, a pergunta volta. A voz, dessa vez, vem da memória dos meus sonhos.

Me sinto fraquejar. Tento controlar a respiração enquanto me levanto e vou até a porta. Checo todas as trancas, testo a maçaneta. Ninguém vai entrar aqui hoje.

Eu estou seguro aqui.

Corto a sala, desvio dos aparelhos fotográficos e sigo para a minha cama de casal. Tomo meus analgésicos, o remédio para dormir, apago o abajur. Meu coração ainda bate com força no peito enquanto eu sinto o remédio começar a fazer efeito. Minha consciência é lavada aos poucos, carregada para os mundos dos sonhos, minhas pálpebras e músculos pesados… e a última coisa que ouço antes de finalmente adormecer é a porta da sala abrindo com um solavanco alto.

E não há nada que eu possa fazer agora.

Eu sonho outra vez. Ouço sua voz e sinto a maciez de seus cabelos encaracolados, que até então ainda estavam muito curtos. Ela sempre foi “Fran” para mim, mesmo quando ainda usava outro nome. No sonho, eu a conheço. Caminhamos lado a lado no pôr do Sol da Avenida Paulista e ela ri quando eu digo que vou transformá-la numa modelo. Choramos, nós dois de mãos dadas, diante do jornal no fim de outubro, e eu lhe compro pão com manteiga num boteco no Brás, porque ela não come frituras.

No sonho, nos amamos…

Mas quando acordo, já não sei mais quem ela é. Tenho a vaga lembrança de um sonho bonito e do cheiro suave da pipoca doce no Sesc Paulista.

Eu sinto minha cabeça pesada pelos remédios e minha garganta seca e desconfortável. Me levanto lentamente, sentindo o corpo estralar. Minha memória é invadinda pelas imagens do sonho e depois pelas do acidente. Me vejo olhando para o lado, à procura de alguma coisa. Vejo um colarzinho de borboleta jogado entre o vidro. A dor volta.

“Café,” digo num grunhido. Sigo a passos pesados para a sala, em direção à cozinha.

E é quando eu a noto. Sinto meu coração apertado e estou totalmente acordado, desa vez. A parede principal da minha casa está coberta de fotos.

Fotos minhas.

Salomão Diniz bebendo seu café da manhã. Comendo seu bife à milanesa. Rindo para a câmera, com uma barba farta de lenhador—uma que eu nunca tive. Depois, um cartão de negócios. Salo Diniz, fotógrafo de casamentos.

“Mas o que…?” murmuro. É mais forte do que eu. Me aproximo das fotos, todas impressas num papel sulfite, fino, barato. Você se lembra, Salo? É o que está escrito em uma delas. Uma na qual me vejo segurando uma mão castanha, de unhas compridas e vermelhas. Minha respiração acelera, meu coração também.

Em uma das fotos, eu a vejo. A mulher dos meus sonhos.

Recuo alguns bons passos e me deixo cair no sofá. Ergo os olhos para as fotos na parede, a dor intensa na cabeça começa a voltar.

Estou sentado naquele mesmo sofá, ao lado dela. Eu pergunto, “O que você acha, Sonho, será que eu largo essa porcaria?” e aponto para minha máquina fotográfica.

“Encontre o que te faz feliz, meu amor,” ela responde.

“Você me faz feliz, Fran.”

Ela dá uma risada linda, jogando a cabeça para trás.

“Você pode dar significado ao seu talento, Salomão. Eu acredito em você.”

Pisco os olhos. A memória é vívida. É real. É mais do que um sonho.

A voz feminina volta. A voz de Fran. “A Sandra vai se casar. Por que você não se oferece para ser o fotógrafo? Se quer mesmo mudar de ramo, precisa começar de algum lugar, meu amor—e ela é sua amiga, tenho certeza que amaria te ajudar.”

Eu chacoalho a cabeça, aperto os olhos. Me curvo muito para a frente, sentindo os olhos queimarem. Não sei de onde essas imagens vêm. Não sei onde estavam!

Me vejo ajoelhado, dessa vez. Minha mãe me encara com os olhos úmidos, meu pai abre um sorriso orgulhoso. Meus amigos estão lá, também, parados à nossa volta. Diante de mim, em meu trabalho, em minha vida, eu sinto e sou significado. Graças a ela, encontrei o meu lugar. O meu chamado. “Francisca Pinheiro… você aceita se casar comigo?”

A dor pára. Encaro a parede com os olhos arregalados, olhando foto por foto. Três anos de fotos. Nossos três anos. A brisa que entra no apartamento gela as lágrimas em minhas bochechas.

Eu não passei três anos em coma. Eu esqueci os meus três anos com ela.

“Você se lembra, Salo? Se lembra agora?” eu escuto.

A voz vem da cozinha e eu me levanto num pulo. Olho para o umbral pintado de branco e meu olhar recai na figura feminina. Os ombros largos, o pescoço comprido, os olhos gentis. Ela me dá um sorriso triste, me oferece a xícara de café em suas mãos.

Por favor diz que você se lembra,” ela pede baixinho, os olhos se enchendo de lágrimas.

Eu caminho até ela. Pego a xícara em suas mãos e a coloco na mesinha ao lado do sofá.

“Eu tinha que fazer alguma coisa,” ela continua diante do meu silêncio. “Eu não posso mais ficar de fora, Salomão. Não posso mais ficar longe!” Ela soluça. “Não me manda embora—mesmo que você não se lembre… Salo!” ela pede, as sobrancelhas torcidas. “Você vai se lembrar, eu tenho certeza que vai se lembrar!”

“Você é louca,” eu murmuro. “De vir aqui assim, de invadir meu apartamento, de fazer isso,” eu digo, apontando para a parede de fotos.

“Salo, por favor! Se você me ouvir, tenho certeza que—”

“Fran,” eu chamo baixinho, caminhando em sua direção. Dou uma risada arfada e cansada. “Tá tudo bem, Sonho,” murmuro, a voz fraca e embargada. “Eu… agradeço. Obrigado por isso. Por estar certa.”

Francisca torce o rosto todo, os lábios trêmulos, os olhos chorosos. Ela esconde a emoção atrás de dedos finos e compridos e depois se joga em meu peito, a cabeça pousada entre minha camisa aberta.

“Ah, Salo,” ela soluça.

“Eu me lembro, Sonho,” eu falo baixinho. “Você tinha razão. Eu me lembro.”

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